quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

badaladas para cinderela

Ela acordou na cama dura com dores em todo o corpo.
Não abriu os olhos. Sentiu que pessoas a observavam.
Ficou deitada, com os olhos fechados, lembrando-se porque estava ali.


Tinha ido àquele teatro para assistir uma peça infantil.
Mas por que entrara ali? Até onde se lembrava, não conhecia nenhuma criança que se apresentaria.
Claro, tinha bebido meio estoque do bar em frente. E, bêbada, entrou naquele lugar onde tantas pessoas entravam. Não se lembrava se comprou ingresso ou foi penetra, mas isso não importava.
Entrou, sentou e esperou que a peça começasse.
CINDERELA
Por que faziam as pobres crianças interpretarem aquilo? Ninguém mais aguentava aquela história. ELA não aguentava aquela história. Mas prestou atenção mesmo assim.
Quando chegou a um momento da história (mais claramente quando a princesa corre do príncipe à meia-noite), ela subiu ao palco, pegou delicadamente o rosto da menina  que fazia a princesa e falou a ela, mas para que todos ouvissem:

"Vá embora, minha querida. Mas não volte. E não o espere voltar. Ele não vai te procurar, nem colocar seu sapatinho em todos os pés da cidade à sua procura. Ele não vai se preocupar com o motivo pelo qual você foi embora correndo. Ele vai voltar para a festa e achar outra vagabunda. Você vai ser mais feliz se souber que esse príncipe não tem nada de encantado. Vá embora e troque esse sapato de cristal por outro mais confortável e saia pra dançar. Vá embora e me espere ir também, porque eu sei que um dia eu também vou fazer isso. E quando eu for, nada vai me trazer de volta - nem um príncipe."

A princesa chorou e correu, o príncipe gargalhou, ela caiu no palco desmaiada e a plateia assistiu - atônita, calada  e imóvel - àquele desfecho para a peça.

4 comentários:

Neto disse...

E a Cinderela descobriu que aquilo não era um contoo de fadas . . .

OOOOTIMO !

Rodolfo Alves disse...

Clarisse Lispector a entenderia. Creio que eu não.

Rodolfo Alves disse...

Hey, mas a moça da história não sabe da existência dos príncipes encantados porque nunca me conheceu.

E eu existo. Na forma de sapo, mas existo.

Marina disse...

Príncipe encantado?? Que nada!
Prefiro os sapos... ñ são dos melhores, mas pelo menos são reais!
Mega realista, minha amiga! \o/