domingo, 27 de fevereiro de 2011

Em meio a tantas pessoas que passavam

Saí pelo mundo pedindo a ele que me contasse histórias. Não procurei muito, nem fui muito longe para encontrar uma personagem perfeita. Ou melhor, para ela me encontrar.
Virei-me em sua direção porque senti que alguém me observava. Era aquela menina - minha personagem. Em meio a tantas pessoas que passavam olhava-me com tanto interesse que senti-me sem roupas. Sem roupas de corpo, sem roupas de espírito. Despida ali, enquanto somente ela me assistia.
Depois que nossos olhares se encontraram, resolvi assisti-la também. Uma menina diferente para seus prováveis 7 anos. Cabelos curtos, mas femininos. Vestido cor-de-rosa com estampa infantil demasiado curto para seu tamanho. Pernas finas e compridas tão inquietas quanto as minhas. Olhos grandes e castanhos tão curiosos quanto os meus. Boca pequena e decidida, que guardava na ponta da língua respostas para tudo.
Nos olhamos por alguns instantes. Eu procurava uma história. Ela insistentemente procurava. Não sei pelo o quê. Não via mais as tantas pessoas que passavam. Ficamos ali, sentadas - frente a frente. Olhos que diziam, mas não sabiam. Bocas que sabiam, mas não diziam. Pernas que se mexiam por vontade própria.
Então, ela se levantou e saiu.
E eu não pude identificar sua história a tempo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Todos iguais

Estava concentrado no meu livro, até que vi Mariana correndo com um plástico na frente do rosto. Depois que eu perguntei o motivo daquilo, ela parou e me respondeu calmamente:
A professora disse que precisamos ver todas as pessoas como iguais, mas eu vejo todo mundo diferente. Aí eu peguei isso, porque aí todo mundo vira um borrão e fica todo mundo igual.
E continuou sua corrida olhando para tudo através daquele igualador de pessoas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mas aí quando você terminou de falar, o sangue escorreu. Diria mais, não esperou você terminar de falar - começou na metade do seu discruso, quando eu percebi o que você realmente queria me dizer. O sangue escorreu bem do meio do meu peito com uma dor tão forte que eu não sentia mais nada, além daquela sangria.

Você estava me deixando, e o seu amor também me deixava. Meu corpo trabalhava na compensação dessa perda. Enquanto seu amor ia embora com meu sangue, meu amor aumentava para que o fluxo sanguíneo fosse normalizado.

Você estava me deixando, e você arrebentava minha pele da forma mais brutal para conseguir sair. Mas é que você estava tão fundo, que o caminho de volta mais difícil que a entrada. Enquanto você entrou aos pouquinhos, tentou sair de uma vez só.

Agora, estão tentando conter minha hemorragia. Mas não dão falsas esperanças, já que o estado é grave e instável.













29/12/2010